THEY DON’T CARE ABOUT US…………….

 

(Escrita e composta por Michael Jacson. Produzida por Michael

Jackson. Cordas arranjadas por Michael Jackson. Vocais: Michael

Jackson. Teclados e programação: Brad Buxer, Chuck Wild, Jef

Bova e Jason Miles. Guitarra: Trevor Rabin e Rob Hof man. Coro

infantil de Los Angeles conduzido por Annette Sanders)

 

“They Don’t Care About Us” é uma das mais ponderosas músicas de

protestos que surgiram nos anos 90. No meio do intenso tumulto politico e

racial da época (Rodney King, revoltas raciais, O. J. Simpson, James Byrd

Jr.), ela apresenta uma pancada direcionada contra um aparato de poder

abusivo, corrupto e opressivo. Interessantemente, enquanto a música se

tornou um hit Top Ten em países em todo o mundo, ela não conseguiu

passar da 30º posição nos Estados Unidos. Apesar de ser desdenhada (e

estigmatizada) nos Estados Unidos, contudo, “They Don’t Care About Us”

permanece como umas das mais fortes faixas de todo o catálogo de

Jackson.

 

Ela também se tornou a mais controversa dele. Antes de HIStory

sequer ser lançado, Bernard Weinraub, do New York Times, descreveu todo

o álbum como “profano, obscuro, furioso e cheio de raiva”. Em particular,

ele assinalou “They Don’t Care About Us”, chamando-a de “visivelmente

crítica aos judeus”. Weinraub estava se referindo às linhas: “Chame-me de

judeu, processe-me/Todo mundo acabe comigo/ Chute-me, chame-me de

kike/ Mas não me chame de preto ou branco”, as quais, ele alegou, eram

claramente antissemitas. No contesto da música, é claro, Jackson estava

tentando o exato oposto.

 

“A ideia de que esta letra poderia ser considerada

censurável é extremamente dolorosa para mim e enganosa”, ele disse em uma

declaração. “A música, na verdade, é sobre a dor do preconceito e ódio e é

uma forma de atrair a atenção para problemas sociais e políticos.

Eu sou a

voz do acusado e do atacado. Eu sou a voz de todos. Eu sou o skinhead, eu

sou o judeu, eu sou o negro, eu sou o branco. Eu não sou o que está

atacando. Isso é sobre injustiças para pessoas jovens e como o sistema

pode, erroneamente, acusa-los. Eu estou como raiva e ultrajado por eu poder

ser tão mal interpretado.

 

Essa declaração não impediu que os críticos se amontoassem e

rotulassem Jackson, que tinha números amigos íntimos judeus, como um

antissemita. Na revisão de HIStory, Jon Pareles, do New York Times, foi tão

longe quanto alegar que “[Jackson] entrega a mentira de todo o catálogo dele,

de temas de irmandade, com uma rajada de antissemitismo.”

 

A narrativa

rapidamente pegou e se espalhou como fogo. Outros, contudo,

particularmente na comunidade afro-americana, defenderam Jackson,

alegando que o uso da linguagem dele não era diferente de como os rappers

usavam o termo “crioulos” como um artifício retórico de “discurso

invertido”, a ideia é fazer epítetos carregados e implantá-los para as

extremidades opostas.

 

Sob contínua pressão, porém, Jackson acabou gravando uma versão

alternativa da música, que borrou sobre a letra “ofensiva”; além disso, a Sony

incluiu uma explicação e desculpa em todos os álbuns subsequentes.

Negligenciada na fabricada controvérsia foi a música em si mesma: um

rap-pop híbrido brilhante, politicamente potente, inspirado nas ruas. Ela se

tornou uma música que não apenas ressoou para os marginalizados na

América, mas também para aqueles em todo o mundo. Sonoramente e

liricamente ela bate como uma marreta, com Jackson lançando rimas sobre

uma crepitante batida militar, cordas sinistras e refrão inesquecível.

 

Ela é um

hino dos oprimidos, um rap de resistência. “O ritmo percussivo da música

poderia ser as palmas de um jogo escolar ou o protesto feito com vigorosos

tapas em um balcão”. Observa Armond White.

 

Na verdade, a faixa começa com que soa como o pátio de uma escola

urbana, como uma mulher guiando crianças em um canto chamada-e-resposta

de indignação: “Tudo que quero dizer é que eles não se importam realmente conosco… Chega, chega deste lixo.” Para aqueles que supõem que todas as

músicas de Michael Jackson devem ser sobre Michael Jackson, é importante

notar que ele começa essa faixa com a voz de outra pessoa. Quando ele

entra, ele está apenas habitando e testemunhando para essas previamente

ignoradas ou desconhecidas vozes. Isso é, dessa forma, um ato de

identificação e fortalecimento.

 

A letra por toda a música é uma das mais convincentes e provocantes

de Jackson. “Diga-me o que aconteceu com meus direitos”, ele canta. “Eu

sou invisível porque você me ignora? Sua proclamação me prometeu

liberdade”. Ele, mais tarde, fala daqueles que são vítimas do ódio, vergonha e

da brutalidade policial. “Você me privou do meu orgulho”, ele canta da

perspectiva do oprimido. “Eu não acredito que esta é a terra de onde eu

vim.”

 

Na ponte, um chanfrado solo de guitarra segue solto sobre o turbilhão

de efeitos de sintetizadores e camadas de forte percussão, palmas, e uma

sampleada revista policial. “A seção da ponte consistia de mais de 300

faixas”, recorda o engenheiro assistente Rob Hoffman. “[No estágio inicial da

música] foi basicamente uma trilha de cliques… Com Michael e Brad

adicionando novos elementos de percussão todos os dias e Andrew e eu

construindo bibliotecas de amostras para ela toda a noite. Bastões, palmas,

tambores, batidas [O] groove básico foi iniciado no MPC, o resto da

percussão foi EIII e EIIIxp; o 909 de Brad [Buxer] é o chute principal.

 

Alguns dos loucos scanners fx e sons foram adicionados bem no fim, por

Chuck Wild. A ponte da música é louca. Nós tínhamos toneladas de

programadores e guitarristas entrando, e todo mundo enchia a própria 24

track tape com overdubs… Eddie [De Lena] e Michael editaram e compilaram

isso para um manejável número de faixas para Bruce [Swedien] mixar.” Jackson trabalhou com o renomado cineasta Spike Lee para os dois

excelentes vídeos musicais para a canção. O primeiro foi filmado em uma

favela pobre no Rio de Janeiro, Brasil.

 

Inicialmente, as autoridades do

governo local tentaram impedir o vídeo de ser filmado, temendo que isso

fosse atrair atenção para a pobreza da cidade. “Eu não vejo por que nós

deveríamos ter de facilitar filmes que iriam contribuir com nada para todos os

nossos esforços em reabilitar a imagem do Rio”, disse o Secretário da

Indústria, Comércio e Turismo, Ronaldo Cezar Coelho. Mas muitos

residentes sentiram diferentemente. “Todo mundo, de repente, está prestando

atenção no Santa Marta, falando sobre condições sociais, sanitárias e outras

condições aqui”, Sr, de Souza, um residente local, disse ao New York Times.

 

“É um mundo pobre cercado por um mundo rico, uma ilha de miseráveis

cercada pela riqueza.” Tribunais acabaram por decidir em favor de permitir

Jackson e Spike Lee a filmarem o vídeo, o qual mostra o cantor em um jeans

casual e camisetas locais, dançando e se envolvendo com as pessoas em

vários locais por toda a cidade.

 

Em uma movimentada rua calçada, ele dança ao lado de duzentos

membros de um grupo de percussão afro-brasileiro, Olodum, que traz uma

energia crua e imediatismo à faixa. Enquanto o vídeo não recebeu muita

atenção nos Estados Unidos, ele teve um apelo internacional e fez uma

declaração política que usou o Rio de Janeiro como um microcosmo para

pobreza em todo o globo. Mas ele também mostrou a vitalidade e a energia

das pessoas. A química entre Jackson e as pessoas é extraordinariamente

natural e espontânea.

 

Através da musica e da dança, o vídeo sugere, vem uma

alegre solidariedade que pode, potencialmente, combater barreiras

opressivas.

 

O segundo vídeo foi gravado em uma prisão de Nova Iorque e foi

imediatamente banido pelas redes de TV, devido à montagem de

perturbadoras imagens dele, incluindo espancamentos policiais, guerra, e

fome. Por causa do banimento, (ironicamente), a maioria das pessoas nunca

viu a versão prisão, o qual é um dos mais corajosos vídeos da carreira de

Jackson. A filmagem na prisão carrega profundas implicações, não

meramente sobre literais condições de prisões, mas também sobre a

condição de pessoas comuns em uma sociedade disciplinada por constante vigilância e uma mais internalizada forma de poder. Jackson entrega a

mensagem dele, vestido como um prisioneiro ele mesmo.

 

Junto com os

colegas presidiários dele, ele impetuosamente desafia o status quo, pulando

em mesas, erguendo o punho dele, liderando uma rebelião de prisioneiros,

batendo nas mesas exigindo justiça e humanidade. “Algumas coisas na vida,

eles simplesmente não querem ver”, ele canta. Mas no vídeo, Jackson se

certifica de que algumas dessas perturbadoras realidades serão reveladas.

 

Isso não é divertido ou fácil de assistir como “Beat It”, mas certamente

reforça a poderosa expressão de revolta e injustiça da música.

Source……themaninthemusic.blogspot.com.br

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