Foi em uma manhã de calor que tínhamos acordado cedo para irmos ao tal evento que nos preparávamos há dias. Eu era muito pequena e não tinha noção do que realmente ia acontecer, então, eu me arrumei com a roupa mais linda que pude e que a senhora que nos cuidava no orfanato tinha mandando.

E aquele dia se fez.

Todos entraram no ônibus de cor amarelo que parecia que a igreja do bairro havia disponibilizado. Eu era muito pequena para lembrar os detalhes, mas não dada a falar muito, por isso, meus olhos eram minha única fonte de comunicação. Não era muda nem nada claro que eu falava só que não tagarelava como todas as crianças.

Ouvindo a musica que me parecia conhecida fomos até o lugar prometido cantando elas. E uma eu conhecia. Ela falava de um amor que não era do homem que cantava. Ele dizia:

“Billie Jean não é meu amor”

E quando eu já estava gostando do tom e de como alguns meninos no ônibus desobedeciam a senhora que pedia constantemente para eles
voltarem aos seus lugares, chegamos ao tão esperado lugar.

Uma imagem que jamais esqueceria.

Éramos mais de vinte crianças do orfanato “Sonho de Pequeno” e éramos os mais difíceis de sermos adotados. E assim que o ônibus parou na frente daquela casa tal como uma pintura mágica, todos nós apenas ficamos em silencio.

A senhora pediu que fossemos seguindo segurando nos ombros do amiguinho que estava a nossa frente, eu lembro do calor daquele dia e de como meu vestido e a renda que envolvia meu pescoço coçava e ardiam pelo atrito do tecido com o suor que caia do meu rosto.
Mas aqui não foi pálio para meus olhos atordoados pelo lindo lugar.

As árvores que estavam ali pareciam de filmes cortadas perfeitamente bem e com algumas bonecas atrás dos troncos. Mais adianta o verde da grama seguia como nunca tinha visto algo tão distante e lindo e o azul do céu parecia que estávamos mesmo no paraíso.

Flores em nossa volta nos dava a sensação de que aquilo tudo não passava de um imenso jardim, mas foi quando lá na frente da fila parou que eu pude ver onde estávamos.

A casa era tão grande tão grande que minha vista não dava para ver tudo e todos os lados. A senhora dona do orfanato estava parada na frente da casa como todos nós olhando apenas. E só saímos do transe quando um senhor atrás de um carrinhos de pipocas disse:

— Sejam bem vindos. Ele logo aparece. Querem pipocas?

A voz dele era sorridente e mais parecia um homem de circo e todos corremos para ele. E em pouco tempo, as crianças do nosso orfanato estava dominando aquele enorme lugar.

Tinha uns lugares que não podia ir e outros que tinham uma corrente e se você se atrevesse a passar, uns senhores de roupas pretas e uma cara nada agradável dizia:

— Afaste-se!

Bom, para alguns garotos não deu muito certo, mas para mim, eu só mesmo queria saber quem era o dono do lugar. Quando andamos mais para outros lados e até foi um pouco cansativo, parquinho havia ali e mesmo que eu achasse que fosse muito, ainda tinha mais.
Animais enormes e bolhas ao ar me deixavam espantada com o mundo encantado, e em particular, aquele foi o melhor dia da minha vida.

A tarde estava caindo e depois de dar várias voltas naqueles carrinhos eu apenas me sentei em uma pedra depois de comer algodão doce e assim observei as janelas do lugar. Algumas pequenas outras largas, mas não foram elas que me fizeram entrar na casa.
Um homem passava por elas e ali ficava todo o tempo e mesmo que parecesse que ele não estava feliz, ele continuava ali nos observando.

Eu levantei e sai andando olhando a janela sem tirar os olhos dele. Ele parecia se esconder e achei aquilo fascinante. Não me pergunte por quê? E subindo os degraus da escada eu entrei na casa.
Era pesada a porta e nada ali era o que eu tinha visto em toda minha vida. Em meus oito anos de idade eu tive que esconder meu impacto de criança feliz muitas vezes, e apenas permanecer viva, já que eu não tinha sido adotada e ficaria por aquilo mesmo.

Eu me lembro do piso brilhar e até poder ver-me naquele chão tão limpinho, mas quando olhei em minha volta me assustei por completo. A casa era cheia de coisa assim que você começava a andar.

Bonecos grandes e muitos muitos retratos espalhados pela casa. Algumas árvores de mentira e plantas de plásticos também, mas o que me encantava mesmo era aquela estranha forma de lâmpada que tinha no alto lá no teto.
Parecia um brinco gigante.

Só que eu não esperava vê-lo ali. Eu sabia quem ele era só não tinha noção de sua grandiosidade e a musica no ônibus me veio a mente e pela primeira vez uni o útil e o agradável.
E continuei andando. Não era um quarto exatamente onde ele tava, era apenas uma sala com várias coisas como se fosse uma sala de descanso e com mais coisas ali e muitos livros e era dali que ele olhava para nós.

E como eu era criança, não precisava ser tão cautelosa.

— É o senhor que mora aqui? Eu disse olhando ele ali na janela e o engraçado foi quando ele deu um sopapo e se virou para mim.
Eu tinha assustado aquele senhor.

— Oi. O que faz aqui? Ele disse com uma voz tão doce fina e carinhosa que parecia a voz do ursinho azul do desenho “ursinhos carinhosos”.

— Não devia? É que todo mundo brinca lá fora não quer também? Essa casa é sua? É mesmo quem penso que é? Como pode ter tantos animais? Eu disse tudo de uma vez e o sorriso dele foi grande.

Um sorriso branquinho e acanhado. Mas era o mais bonito que tinha visto.

— Por onde começo a lhe responder pequena? Ele disse vindo até mim e eu apenas o olhei.

— O senhor tem quantos tigres? Eu acho que vi tigre! Eu disse indo a janela.

— Gosta deles? Ele disse me olhando ainda daquele jeito sorridente, e achei legal.
Pelo menos alguém sorria para mim.

— Eu gosto sim todos grandes lindos e preguiçosos. Queria ser um. Imagine o senhor comer dormir e correr pela floresta. Eu disse começando a subir na janela e ele veio depressa.

— Não. Não faça isso! Ele veio até mim e me pegou em seu colo.

Eu o observei e vi como ele era diferente. Olhos grandões e escuros e queixo cumprido com cabelos lisinhos e bem pretos.

— Não pode subir ali. Se eles verem isso eu estou mesmo encrencado. Ele disse levantando uma sobrancelha e eu sorrir pra ele.

— É engraçado. Por que não desce senhor Jackson! Eu disse descendo do colo dele e olhando para o alto. Ele era bem alto.

— Eu estava mesmo pensando nisso. Mas me diga como se chama? Ele falou caminhando até a porta.

— Me chamo Lucia. Mas não sei o resto. A senhora do orfanato disse que cheguei em uma lata de sardinha e ai ela teve que me salvar para as outras crianças me comerem. Eu não acredito nisso!

E parei de andar quando ele deu uma gargalhada no meio do caminho que traçávamos.

— Ninguém cabe em uma lata de sardinha pequena. Ele disse se abaixando e mexendo no meu nariz.

— É o que ela diz. Essa casa é sua? Eu falei olhando em volta. Ele tinha uma bela casa mesmo.

— Sim eu mesmo que a comprei. Gostou dela? Ele se levantou da minha vista e seguiu andando.

— Sim senhor. É grande mais um pouco bagunçada.

— Tem razão Lucia, mas venha, vamos descer. Não é bom ficar aqui tem que ficar com as outras crianças. Ele disse pegando minha mão e descemos.

Eu segui com ele e descemos as escadas da casa. Eu lembro dele falar muito e também lembro de como aquela tarde foi maravilhosa. Ele desceu e muitas pessoas que tinham chego depois que eu subi em sua casa, o abraçavam e o diziam coisas lindas.

“Eu te amo Michael”
“Você é o melhor”

Não tinha nada de especial e nem mesmo eu era uma criança que chamava atenção, eu era muito pequena e com uma língua solta se quisesse, e só depois daquele dia notei que com ele eu não tive medo de falar.

Os ônibus tinham ido a maioria deles, e depois de comer tanto doces com ele eu não aguentava mais o cheiro. Quando criança não sabe o que é o amor de adultos, mas temos a capacidade de nos afeiçoar por demais e de idolatrar alguém.
E fiz isso naquele dia.

Todo o tempo que ele estava ali segurando minha mão ou eu estando em seu colo ou quando ele arrumava meus cabelos, eu o abraçava sempre fazia aquilo. Ele tinha aquela coisa agradável parecendo que nos conhecíamos há anos.
Mas o meu dia de mágica terminou quando um senhor também alto e um pouco enfezado chegou à casa com outros parecidos com ele por que vestiam paletós também e ai ele se afastou de mim.

“Não saia daqui logo volto”

Foi o que ele tinha dito e me deixado com algumas pessoas e outras crianças. Michael que era Jackson sempre foi daquele jeito. Ele era terno demais e também muito ocupado, mas como uma criança que era, tinha notado que nós ali éramos o problema quando ele mesmo falava apontando para todo o lugar parecendo furioso e sem falar mais nada entrou na casa.

Eu olhei para os lados e me senti sem jeito e fiquei com medo e corri para o lado das crianças que se arrumavam para ir. Todas nós novamente arrumadas e a senhora passava contando cada um de nós.

Quando ela disse que podíamos ir embora e vi o motorista entrar no ônibus senti uma saudade enorme dele e como já era de noite, só as luzes daquele lugar eram lindas de ser ver e logo, elas pareciam como estrelas em meus olhos.

Meus olhos encheram de água e acho que aquela foi a primeira vez que sentia angustia.

Mas, sabendo que estava fazendo coisa muita errada, aproveitei para sair quando a senhora procurava a Maria. Uma menina de quatro anos que sempre fugia e correndo entre as sombras do lugar eu me distanciei do ônibus.

Eu corri tanto que meu pequeno coração estava batendo forte quando eu me escondi atrás da arvore e não senti medo de ficar ali fora quando o ônibus seguiu sem mim, e em vez de eu seguir para a casa dele, eu parei no carrinho de frutas com caudas e comi tanto chocolate como nunca na vida.

Quando olhei em minha volta, o por do sol não estava mais lá e um barulho de grilo e água caindo ecoava no ar e tudo estava um pouco escuro demais. Meus olhos arregalados foram a expressão do pavor e com as mãos o rosto e cara toda suja eu corri para a casa grande cheia de coisas lindas na frente.

— Hei, deixa eu entrar! Eu disse serrando os lábios com vontade de chorar. Eu ia chorar.

Aquele escuro perto de mim aquele frio e aquele barulho de noite me faziam temer muito mais e por um estante queria minha mãe. Que mãe?

— Mas, veja o que temos aqui! Uma senhora de branco disse abrindo a porta.

— Onde ele está? Ele disse que voltava! Eu falei olhando quase aos berros.

A mulher abriu a porta um pouco mais e eu entrei na casa que estava muito mais linda com as luzes ligadas, e notei alguns homens ali me olharam espantados.

— Eu não sei senhor Jackson ela apenas esta aqui e cheirando a chocolate! A mulher de branco disse apontando para mim e quando eu o vi.
Meu coração pulou!

— Lucia? Pensei que tivesse ido criança! Ele disse com aquela voz só que diferente e logo atrás um senhor veio também.
E até hoje, não sabia por que tinha chorado tanto depois que o vi.

Eu não conseguia falar por que a emoção que ele tinha sobre mim era como se ele fosse alguém tão bom e que me salvasse que no momento que ele me abraçou e me pegou em seu colo, eu não conseguia parar de chorar.

— E quem é? Michael o que é isso? O moço que falava alto falou para ele.

— É a criança que entrou aqui hoje de tarde, mas todos já se foram. Liguem para os orfanatos digam que esqueceram uma. Que absurdo é assim que cuidam desses inocentes?

Ouvi ele dizer enquanto parecia que tinha acordado a casa toda.

Não lembro muito da discussão que se seguia só lembro de sentar em uma mesa linda e comer um pouco mais. Aquela moça me levou ao banheiro eu tomei um banho, vesti uma roupa grande em mim e ela penteou meus cabelos para trás.
E quando descemos e entramos em uma sala grande cheia de cadeiras e com cortinas vermelhas eu o vi. Ele estava sentando em uma das cadeiras vendo um filme que passava em tela grande e quando cheguei perto dele, eu vi um bebê em seus braços.

— Ela está aqui senhor! Tomada banho e com a roupa que pediu. Coube nela. A moça falou me empurrando para perto dele e ele sorriu.

— Como se sente pequena? Eu não pensei que ficaria, sabia? Mas poderá ficar até descobrimos qual é o seu orfanato, o estranho é que ninguém ainda ligou. Já ligou para todos John? Ele disse alto e aquele senhor chato levantou das cadeiras mais lá atrás e veio para frente.

— Não Michael só que isso não me cheira bem.

— Ora não comece John é apenas uma criança e veja foi esquecida. Isso é realmente triste. Ele disse estendendo as mãos para mim.

— Sei. E isso não te lembra nada?

Eu não entendi naquela noite, mas o olhar deles dois não era nada agradável um para o outro.
E se todos tivessem a mesma experiência que eu tive com ele, jamais ele tinha sido tão massacrado por mentirosos.

E ali, assistimos a um filme muito bom que tinha um ser chamado E.T, ao filme ele sorria e gargalhava como criança e eu queria ser como ele e começava a treinar seus gestos.

Com o tempo, o bebê dormiu no colo dele e lembro que o bebê tinha uma cabeça até grande. A babá o levou e nos estiramos no chão. Eram pipocas doces refrigerantes e muitas cascas de bombons entre nossos cabelos. Tínhamos assistido todo o filme deitados ao chão com aquela tela grande pertinho de nós. Eu lembro que ele comentava muito sobre o filme e se aproximava de mim mostrando-me um detalhe ou uma cena que ele sabia que viria e quando a cena passava, ele sorria sozinho.

E antes de eu dormir, eu lembro do cheiro do lugar do doce gosto do chocolate na boca do cheiro que vinha dele e da musica que ele cantava. Era algo como uma canção de ninar e falava de alguém na escuridão.
Ele cantava com tanta vontade que ficou marcada em minha mente e no subconsciente…

“ my friend is someone in the dark… was you”

E dormi.

E na minha falha memória só lembro da hora de ir. A senhora do orfanato tava brava e tinha atrás dele algumas pessoas. Lembro da camisa vermelha dele e do óculos escuros que ele usava olhando para mim fixamente nos meus olhos ele disse:

— Prometa que vai se cuidar. E que será uma linda moça e será feliz. Ele disse segurando minhas mãos.

E sabe? Aquele olhar que não tem emoção ao mesmo tempo tem e que sentimos uma angustia no peito e não conseguimos falar e só olhamos tudo acontecer? Foi assim que o vi pela ultima vez.

Eu balancei minha cabeça e a abaixei dizendo que sim eu faria aquilo. Os olhos dele tinha um brilho lá no fundo e quando ele me abraçou eu ouvi o que ele disse em meu ouvido.

“ my friend is someone in the dark…”

Eu lembrei da musica e completei.

— was you….

Ele pareceu contente com a minha lembrança da letra da musica e me beijou vários vezes na bochecha. Arrumou aquele vestido em mim e passou as mãos varias vezes ao redor do meu rosto.
Ele falou algo com o homem irritado e finalmente fomos embora.

Não foi no ônibus de escola foi em um carro enorme e tinha muita comida ali. Ele ficou de pé dando tchau ao lado daquelas pessoas e ficando pequenino cada vez mais que íamos para longe daquele lugar mágico.

E então, eu chorei!

A senhora falava e falava e perguntava como que eu tinha feito aquilo como eu tinha tido coragem pra fazer aquilo como eu tinha feito tanta idiotice sendo tão nova. E não sei o que tinha acontecido.

Eu deixei pra trás aquilo.

Não contei pra ninguém nem mesmo a senhora dona do orfanato deixou eu me gabar com tal acontecimento. As coisas que eu tinha ganho dele assim como a roupa e brinquedos ela deixou tudo no carro para seguir novamente.

Estava no trabalho quando soube que ele tinha morrido. Talvez se uma semana daquele nosso encontro, o orfanato não tivesse pegado fogo, e eu não tivesse sido mandada para o Canadá eu tinha o visto de novo ou tinha fugido para sua casa e o imploraria de joelhos para me adotar.

Mas tudo na mente de uma criança é fácil e ainda tem um tom de heroísmo.

Eu acendi meu cigarro e esperei o dinheiro sair do caixa eletrônico. Trabalhar como jornalista investigativa tinha me dado à oportunidade para voltar a Califórnia e mesmo que tivesse perto dos meus 20 anos, eu tinha sido uma menina prodígio e uma vencedora. Bom, exatamente não era verdade. Só tinha juntado o útil e o agradável e tinha cuidado de mim mesmo.

Caminhei até o bar que tinha ido mais cedo e tinha me agradado e entrei, sentei nas cadeiras ali do balcão. Pedi uma bebida e pela minha idade ou aparentar ser nova, tive que mostrar a identificação e comprovando que tinha mais que 16 anos.

Pessoas chegaram pessoas saíram e eu continuei sentada. Alguns vieram até mim e quase soquei um homem cheirando a bebida, mas o garçom me defendeu. E mais uma dose de uma batida de frutas tomei.

Eu era forte para bebidas.

Um homem entrou no bar e sentou-se perto da janela ali que estava até um pouco embaçada pelo inverno. Eu o olhei para ele e notei seus olhos em mim e ergui o copo e revirei os olhos de desagrado quando ele levantou sua mão e sorriu para mim, me cumprimentado também.
E o silencio foi quebrado com o noticiário.

“ Bad 25 o documentário mais esperado. Não percam”

E algo passou por meu coração. Eu suspirei um tanto triste. Ninguém sabia da minha experiência com Michael e até eu cheguei a pensar um dia que tinha sido tudo um sonho.

— Ele era o melhor pena que o mundo não soube tê-lo! O cara atrás do balcão disse pra mim.

— O mundo é injusto senhor. Eu sei bem! Eu falei bebendo em uma golada a bebida.

Eu tava pronta pra sair dali e sair daquela sensação que era estar naquele lugar de novo. Hoje cedo de manha, tinha passado por aquele lugar mais uma vez e aquele tom cinzento sem vida era o que morava ali agora.
O silencio morava em Neverland.

— Dizem que ele fugiu disso tudo! O senhor que tinha entrado disse lá do canto.

Eu o olhei de olhos serrados e defendi Michael. Ninguém precisava saber a importância dele para mim, mas era como me dá um murro na boca do estomago alguém falar mal dele. Eu o amava do meu jeito e não suportava que aqueles tabloides estivessem na boca dos tolos que acreditavam na merda que a mídia era.

— Eu não o julgaria senhor. Toda a minha vida eu li e reli o que disseram sobre ele e é tudo mentira. E veja o que temos. Todas aquelas pessoas falando que querem se desculpar por que foram induzidas a mentir contra ele. Tudo hipocrisia! Eu disse ficando furiosa!

Era uma fã afinal!

— Como sabe? O homem estranho que parecia que sorria pra mim disse me encarando.

— Eu só sei! Eu disse virando para a TV e esperando ele sair dali pra eu ir embora.

Sabe lá quem ele era. Passaram-se alguns minutos e ele ali e eu assistindo TV. Quem sabe ele se cansasse e se fosse logo. Eu estava sozinha
naquela cidade e ter problemas com homens não era o que eu tinha vindo fazer.

Em um rompante, a porta do bar se abriu e um homem de preto e óculos fez um sinal para o sujeito do canto da sala e ele se levantou e parou ao meu lado tirando um trocado da carteira de couro fino.

— Só falta parecer feliz. É linda e vejo que se cuidou muito bem! Ele sussurrou perto de mim e me afastei bruscamente. Eu o encarei furiosa até ele sumir dali e voltei a sentar. E saiu pela porta.

— Não se preocupe moça homens assim vem sempre aqui. É bonita. Chama atenção. O velho do balcão disse sorrindo pra mim.

Eu ia falar pra ele ir escovar os dentes para depois me cantar, mas algo ficou no balcão. Era um pequeno papel dobrado com pressa e eu o peguei e o abri. Em todo ele estava branco e só no fim do papel estava escrito.

“my friend is someone in the dark…”

E três reticências.
Minhas mãos de imediato tremeram ao ponto do cara a minha frente perguntar se eu estava bem. Eu dei dois passos pra trás contendo a náusea que sentia e a vontade louca de chorar.

Eu estava entalada, eu estava entalada com a possibilidade daquela loucura!

— Michael! Eu falei pra mim mesmo e sai correndo do bar.

Mas não havia mais ninguém lá.

Só uma neve que caia com força agora e junto com ela a minha quente lagrima. Uma lagrima de anos atrás uma lagrima de crianças uma lagrima de sonhos.

Uma dor se apoderou do meu coração e as perguntas de saber se era ele ali me fez parecer uma louca. Mas ninguém sabia daqueles detalhes. Só podia ser ele. Ele estava vivo.

Meu Deus! Pensei…

Depois de ter corrido toda aquela rua bairro e lugar eu virei uma maluca atrás dele. Não, não uma believer… Apenas uma aprendiz de jornalista investigativa que queria acreditar em meus sonhos. Demorou para me recuperar daquele dia e ninguém soube também daquele segundo encontro com ele. E no fim, eu o admirei mais.

Ele tinha feito algo grandioso ele tinha sido esperto. Ele agora via quem o amava de verdade e quem ele tinha ao seu lado. Também tentei parar de imaginar onde ele estaria, mas onde? Aquele dia ele estava ali disfarçado e eu com minha dor não o vi.
A dor podia ter me matado, mas não.

Ele era a pessoa na minha escuridão e minha estrela a brilhar e que nunca tínhamos dito adeus um para o outro. Por conta dele eu tinha me tornado o que era. Eu prometi isso a ele.
E ele voltou pra ver se eu tinha cumprido.

O normal seria ir atrás dele e procurar e bater na porta de sua família e me mostrar. E dizer eu sou Lucia a menina que ficou com ele um dia na sua casa encantada que cheirava a bombom e que ele cantou uma musica pra mim…
Mas quem acreditaria?

E foi aí que entendi sua mensagem que se eu precisasse ele estaria ali e que ele nunca se fora. E que éramos alguém na escuridão do mundo que aumentava lá fora. E olhando minha pela janela agora, depois que voltei daquela cidade me sentindo aquela menina como naquele dia quente, eu pode entender que ele só queria ser “alguém” simples assim.

“Meu alguém na escuridão”

~ Por Mila ~

 

Advertisements